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A onda de calor mais longa em cem anos provoca mortes na Argentina


Temperaturas de mais de 40 graus motivam protestos nas ruas de Buenos Aires pelos cortes de luz. Foto: V. R. Caivano (AP) 

    Buenos Aires, El País/Alejandro Rebossio - Uma onda de calor no norte e o centro da Argentina, a mais longa desde 1906 neste país, já deixou três mortos e está provocando novas marcas históricas de consumo de energia pelo uso de ar-condicionado, que vem se traduzindo em cortes do serviço, como nas últimas duas semanas. Não há apagões em massa, mas em diversos bairros de Buenos Aires e outras cidades argentinas se repetem interrupções de uma ou duas horas, por seis ou até dez dias. Os moradores afetados estão perdendo a paciência e multiplicam-se protestos, inclusive numa rodovia que conduz ao aeroporto internacional em Ezeiza e nas proximidades de duas linhas de trens perto da capital. Ali, os usuários queimam pneus e o que tenham à mão. O clima tem subido, da mesma forma que a temperatura, que na quinta-feira alcançou os 39 graus em Buenos Aires e que continuará alta até a próxima terça-feira, segundo as projeções.


Jovens mergulham no chafariz de Buenos Aires

    Três pessoas morreram com a onda de calor, entre a terça-feira e a quinta-feira passadas, nas províncias de Santiago del Estero e Salta. Em Santiago del Estero, onde o termômetro chegou a marcar 49 graus, morreu um idoso de 72 anos que vivia na rua e outro homem de 34 anos que dormia em sua casa. Em Salta morreu outra pessoa de insolação, depois de um ataque cardíaco enquanto caminhava nas margens de uma rodovia. Em Buenos Aires, o serviço sanitário já assistiu a mais de 1.100 pessoas afetadas pelo calor.

    Os cortes elétricos são aleatórios e repetem-se enquanto continua o calor em Buenos Aires, em províncias do Norte argentino (Tucumán, Jujuy, Corrientes, Chaco) e do centro (Mendoza, San Luis, San Juan, Córdoba, Santa Fé, Entre Rios). O ministro de Planejamento Federal, Julio de Vido, procurou explicar nesta quinta-feira que as interrupções do serviço se registraram tanto em Buenos Aires, onde uma família de quatro pessoas pode pagar quatro euros por mês pelo fornecimento de luz, como nas províncias, onde os consumidores pagam até quatro vezes mais. Deste modo, buscou responder aos especialistas que têm criticado que desde a crise argentina de 2002, as tarifas não se atualizaram na capital e seus arredores, onde vota um terço dos argentinos e onde se mede o índice de preços ao consumidor (IPC). Os críticos do Governo da peronista Cristina Fernández de Kirchner consideram que uma tarifa tão baixa desincentiva o investimento na oferta de energia. Na semana passada, a porta-voz de Edesur, uma das duas distribuidoras elétricas de Buenos Aires, cujo controle está em mãos da espanhola Endesa (propriedade da italiana ENEL), responsabilizou as baixas tarifas pela qualidade do serviço, o que irritou ao ministro De Vido.

    Desde 2002, os lares de bairros de classes média e baixa de Buenos Aires continuam pagando a mesma tarifa, pese a que a inflação, desde então, superou os 700%. Edesur, que da mesma forma que outras empresas privatizadas nos anos 1990, foram acusadas de benefícios extraordinários nessa década, perdeu dinheiro entre 2010 e 2012, mas voltou ao lucro na primeira metade de 2013.

    O chefe de Gabinete de Ministros, Jorge Capitanich, dizia na semana passada que seu Governo estava disposto a reestatizar o fornecimento se a Edesur e a outra revendedora portenha, Edenor, do empresário argentino Marcelo Mindlin, não solucionassem os cortes. Nesta sexta-feira, Capitanich disse, porém, que o Executivo analisava transferir o serviço à cidade autônoma de Buenos Aires e à província do mesmo nome. Também disse que as duas revendedoras eram as únicas responsáveis pelas interrupções e que sua Governo vai lhes impor multas. A capital está governada pelo conservador Mauricio Macri, do Partido Propuesta Republicana (PRÓ), cujos dirigentes acusam o Governo de Cristina Fernández de tentar isentar-se do problema. A província de Buenos Aires está em mãos do peronista kirchnerista Daniel Scioli.

    Os usuários afetados, enquanto isso, interrompem o trânsito de carros ou trens em seus bairros. Consideram que os piquetes são a única maneira de chamar a atenção dos meios de comunicação e, desse modo, dos governantes e das companhias, cujos telefones estão colapsados. Os motoristas de carro ou passageiros de ônibus e ferrovias sofrem com a demora. Em dez anos de Governo, o kirchnerismo sustentou a política de não reprimir bloqueios de ruas, de modo a evitar os habituais excessos policiais.

    O ministro De Vido pediu nesta sexta-feira às empresas que primeiro “ponham a cara com a gente” que protesta e restabeleçam o fornecimento de energia. “Depois vamos sentar para discutir e ver quais são as obras que se fizeram e quais se tinham que fazer. Vamos ver depois as multas, e se há reincid“encia”, acrescentou. Não é o primeiro verão austral no que se repetem os cortes elétricos e as negociações entre De Vido e as elétricas, mas a história não acaba.

    Na quinta-feira, vizinhos do município de Lanús, no sul da periferia de Buenos Aires, incendiaram a porta de um escritório da filial de Endesa. Em Rosario, onde uma empresa estatal de Santa Fe fornece energia, vizinhos com armas de fogo tentaram sem sucesso sequestrar dois técnicos da companhia que ia consertar uma linha em média tensão. O episódio mais trágico ocorreu na passada terça-feira quando um policial que ia de civil em seu carro particular matou em Buenos Aires um morador que montava um piquete e que lhe impedia a passagem.

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Edição 47