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Como a indústria farmacêutica manipula testes de medicamentos



Estudos revelam: laboratórios interferem diretamente nos órgãos governamentais que avaliam remédios, produzindo “resultados” que atestam falsa eficácia e minimizam efeitos colaterais

Por Ben Goldacre, na Esquerda.net

Este artigo é um resumo do livro “Bad Pharma”, de Ben Goldacre, publicado pela Fourth Estate e pela Bizâncio, em Portugal (2013) - onde foi traduzido como “Farmacêuticas da Treta”

    Já prescrevi a reboxetina. Outros medicamentos nada tinham feito pelo meu paciente, de forma que queríamos experimentar algo novo. Tinha lido os dados do ensaio antes de passar a receita, e só encontrei provas bem desenhadas, imparciais e com resultados muito positivos. A reboxetina foi melhor que o placebo, e tão boa quanto qualquer outro antidepressivo em comparação um a um. O seu uso é aprovado pela Agência Reguladora de Medicamentos e Produtos Sanitários (MHRA), que regula todos os fármacos no Reino Unido. Milhões de doses são anualmente prescritas em todo o mundo. A reboxetina aparecia claramente como um tratamento seguro e eficaz. O paciente e eu discutimos brevemente as evidências, e concluí que era o tratamento adequado para fazer outra tentativa. Assinei uma receita. Mas ambos tínhamos sido enganados.

    Em outubro de 2010, um grupo de pesquisadores finalmente foi capaz de reunir todos os dados que haviam sido recolhidos para a reboxetina, tanto dos ensaios publicados como dos que nunca tinham aparecido em publicações acadêmicas. Quando todos estes dados se juntaram, produziu-se uma imagem impactante. Tinham sido realizados sete ensaios comparando a reboxetina e um placebo. Só um, levado a cabo em 254 pacientes, teve um resultado claro, positivo, e foi publicado numa revista acadêmica para a leitura por médicos e pesquisadores. Mas outros seis ensaios foram realizados em quase dez vezes mais pacientes. Todos mostraram que a reboxetina não era melhor que uma pílula de açúcar. Nenhum foi publicado. Eu não tinha nem ideia de que existiam.

Dados não publicados, efeitos secundários ocultados
    Mas há pior. Os ensaios que compararam a reboxetina a outros fármacos mostraram exatamente a mesma situação: três pequenos estudos, com 507 pacientes ao todo, mostraram que a reboxetina foi tão boa como qualquer outro fármaco. Todos foram publicados. Mas os dados de 1657 pacientes ficaram sem publicar, e estes evidenciaram que os pacientes tratados com reboxetina tiveram piores resultados que os que tomavam outros fármacos. Se tudo isto não fosse suficiente, mencionavam também efeitos secundários. O fármaco parecia bom nos ensaios que apareceram na literatura acadêmica, mas quando vimos os estudos não publicados, descobrimos que os pacientes que estavam a tomar reboxetina tinham mais probabilidades de sofrer efeitos secundários, mais probabilidades de abandonar a toma do fármaco e maior probabilidade de sair do ensaio devido aos efeitos secundários, do que os pacientes que tomavam algum dos fármacos competidores.

Tão eficaz quanto uma pílula de açúcar
    Fiz todo o que se supõe que um médico deve fazer. Li todos os documentos, avaliei-os criticamente; eu compreendia-os, comentei-os com o paciente e tomávamos uma decisão conjunta baseada na evidência. Nos dados publicados, a reboxetina era um fármaco seguro e eficaz. Na realidade, não era melhor do que uma pílula de açúcar e, pior ainda, com mais riscos que benefícios. Como médico, fiz algo que, tendo em conta toda a evidência disponível, prejudicou o meu paciente, simplesmente porque os dados pouco positivos não foram publicados.

    Nesta situação, ninguém infringiu qualquer lei, a reboxetina está ainda no mercado e o sistema que permitiu que tudo isto sucedesse ainda está a funcionar, para todos os fármacos, em todos os países do mundo. Os dados negativos vão-se perdendo, para todos os tratamentos, em todas as áreas da ciência. Os reguladores e os organismos profissionais, a quem razoavelmente caberia esperar que acabassem com estas práticas, falharam. Estes problemas foram afastados do escrutínio público porque são demasiado complexos para serem apreendidos num estalar de dedos. É por isso que os políticos não têm feito muito, pelo menos em parte; mas também por isso convém explicar os detalhes. As pessoas nas quais deveríamos ter confiado para solucionar estes problemas falharam e, como é preciso compreender um problema corretamente para poder solucioná-lo, há algumas coisas que é preciso saber.

Imagens distorcidas
    Os mesmos que fabricam os medicamentos avaliam-nos em ensaios clínicos não muito bem desenhados, com mostras desesperadamente pequenas de pacientes, frequentemente raros e não representativos, e os resultados são analisados utilizando técnicas propositadamente defeituosas, de tal maneira que exageram os benefícios dos tratamentos. Como é de esperar, estes estudos tendem a produzir resultados que favorecem o fabricante. Quando os ensaios chegam a resultados que as empresas não gostam, têm todo o direito de os esconder dos médicos e dos pacientes, e assim só se vê uma imagem distorcida dos verdadeiros efeitos de um fármaco. Os reguladores veem a maioria dos dados do ensaio, mas só desde as fases iniciais da vida de um fármaco, e ainda assim não compartilham esta informação com os médicos ou os pacientes, nem com outros escritórios governamentais. Esta evidência distorcida comunica-se e aplica-se então de uma maneira distorcida.

Ensaios feitos por pessoas que trabalham em segredo para as farmacêuticas
    Nos seus 40 anos de prática depois de sair da faculdade de medicina, os médicos ouvem sobre o que funciona “ad hoc”, sobre os representantes de vendas, colegas e revistas. Mas os colegas e as revistas podem ser pagos pelas companhias farmacêuticas – muitas vezes de forma oculta. E também o são os grupos de pacientes. E, por último, os ensaios acadêmicos, que toda a gente pensa que são objetivos, com frequência são planeados e escritos por pessoas que em segredo trabalham diretamente para as empresas, sem o revelar. Às vezes revistas acadêmicas inteiras são propriedade de uma empresa farmacêutica. Além de tudo isto, para vários dos problemas mais importantes e duradouros na medicina, não temos ideia de qual é o melhor tratamento, porque ninguém tem interesses financeiros de levar a cabo um estudo.

    Em 2010, os pesquisadores de Harvard e Toronto identificaram todos os ensaios realizados com cinco classes principais de fármacos – antidepressivos, remédios para a úlcera e assim sucessivamente – e extraíram informação sobre duas características básicas: eram positivos? E eram financiados pela indústria? Encontraram-se mais de 500 ensaios ao todo: 85% dos estudos financiados pela indústria foram positivos, mas só 50 % dos ensaios financiados pelo governo o foram. Em 2007, os pesquisadores analisaram todos os ensaios publicados que exploravam os benefícios de uma estatina. Estes medicamentos redutores do colesterol diminuem o risco de sofrer um ataque ao coração e prescrevem-se em grandes quantidades. Este estudo encontrou 192 ensaios ao todo, seja comparando uma formulação de estatina a outra, ou comparando uma estatina com outro tipo de tratamento. Descobriram que os ensaios financiados pela indústria eram 20 vezes mais propensos a dar resultados a favor do fármaco em teste.

Resultados aterradores
    Estes resultados são aterradores, mas provêm de estudos individuais. Assim, vamos considerar as revisões sistêmicas nesta área. Em 2003, publicaram-se duas. Reuniram todos os estudos publicados até à data e observaram-se os financiados pela indústria associados à apresentação de resultados favoráveis à indústria; descobriu-se que os ensaios financiados pela indústria tinham, em conjunto, cerca de mais quatro vezes probabilidades de obter resultados positivos. Uma nova revisão em 2007 examinou os estudos publicados durante esses quatro anos: encontraram-se mais 20 trabalhos, e todos, menos dois, mostraram que os ensaios patrocinados pela indústria foram mais propensos a apresentar resultados favoráveis.

    Acontece que este padrão persiste mesmo quando nos afastamos de trabalhos acadêmicos publicados e se analisamos os relatórios de ensaios de conferências acadêmicas. James Fries e Eswar Krishnan, da Escola de Medicina da Universidade de Stanford na Califórnia, estudaram todos os resumos de investigação apresentados nos congressos do Colégio Americano de Reumatologia de 2001, que incluíam resultados de algum tipo de ensaio clínico e admitiam ter sido patrocinados pela indústria, com o fim de averiguar em que proporção apresentavam resultados que favoreciam o fármaco do patrocinador.

    Em geral, a secção de resultados de um trabalho acadêmico é extensa: apresentam-se os números em bruto para cada resultado, e para cada possível fator causal, mas não só como puros números. Dão-se os rankings, exploram-se os subgrupos, as provas estatísticas realizadas, e cada detalhe é descrito em forma de tabela, e em forma de narrativa curta no texto. Este longo processo geralmente ocupa várias páginas. Em Fries e Krishnan (2004), este nível de detalhe não era necessário. A secção de resultados é uma única e simples – penso eu – frase bastante passivo-agressiva: “Os resultados da cada ensaio controlado aleatoriamente (45 de 45) favoreceram o fármaco do patrocinador.”

Como se faz a manipulação
    Como isto ocorre? Como fazem os ensaios patrocinados pela indústria para conseguir quase sempre um resultado positivo? Às vezes, os ensaios são defeituosos na sua concepção. Podem comparar o novo fármaco com uma coisa que se sabe que é lixo – um medicamento existente numa dose inadequada, talvez, ou uma pílula de açúcar (placebo) que não faz quase nada. Podem selecionar os pacientes com muito cuidado, pelo que são mais propensos a obter melhores resultados no seu tratamento. Podem fixar-se nos resultados a médio prazo, e deter o processo antes de tempo se parecerem bons. Mas após todas estas peculiaridades metodológicas, vem um truque muito singelo que compromete a integridade dos dados. Às vezes, as companhias farmacêuticas levam a cabo muitos ensaios, e quando veem que os resultados são pouco favorecedores, simplesmente não os publicam.

    Dado que os pesquisadores são livres de ocultar os resultados que quiserem, os pacientes ficam expostos a uma cadeia espantosa de riscos no conjunto da medicina. Os médicos podem não ter nem ideia dos verdadeiros efeitos dos tratamentos que prescrevem. Esta droga funciona realmente melhor, ou simplesmente esconderam-me metade dos dados? Ninguém o pode dizer. Vale a pena o dinheiro deste medicamento tão caro, ou simplesmente os dados têm sido manipulados? Ninguém o pode dizer. Este medicamento matará os pacientes? Há alguma evidência de que é perigoso? Ninguém o pode dizer. Esta é uma situação estranha que se propõe em medicina, uma disciplina na qual se supõe que tudo é baseado em evidências.

    E este dado está retido por todo mundo da medicina, de acima a abaixo. O NICE, por exemplo, é o Instituto Nacional para a Saúde e a Excelência Clínica, criado pelo governo britânico para levar a cabo resumos cuidadosos e imparciais de todas as provas sobre os novos tratamentos. Não é capaz nem de identificar nem de aceder aos dados sobre a eficiência de um medicamento que foram retidos pelos investigadores ou pelas empresas: o NICE não tem mais direito legal a esses dados que qualquer cidadão, apesar de tomar decisões a respeito da eficiência e o custo-eficiência, em nome do Sistema Nacional de Saúde, para milhões de pessoas.

Contratos com cláusulas de amordaçamento
    Num mundo razoável, quando os investigadores realizam ensaios com uma nova pílula para uma empresa farmacêutica, por exemplo, esperaríamos ver contratos universais que deixem claro que todos os pesquisadores são obrigados a publicar os seus resultados e que as indústrias que os patrocinam – que têm um enorme interesse em obter resultados positivos – não têm controlo sobre os dados. Mas, apesar de todo o que sabemos a respeito dos desvios na investigação financiada pela indústria, isto não sucede. De facto, o oposto é verdadeiro: é completamente normal que os pesquisadores e acadêmicos que realizam ensaios financiados pela indústria assinem contratos submetendo-se as cláusulas de amordaçamento que os proíbem de publicar, discutir ou analisar os dados dos seus ensaios sem a autorização do financiador.

    Esta é uma situação tão discreta e vergonhosa que até tentar documentá-la para a comunicar ao público pode ser uma aventura cheia de tensão. Em 2006, publicou-se um artigo no Journal of the American Medical Association (JAMA), uma das revistas médicas de maior circulação do mundo, descrevendo como é comum que os pesquisadores que realizam ensaios financiados pela indústria tenham de se submeter a esse tipo de restrições impostas aos seus direitos de publicar os resultados das investigações. O estudo foi realizado pelo Centro Nórdico Cochrane, que analisou todos os ensaios que tinham recebido a aprovação para se realizar em Copenhague e Frederiksberg (se se pergunta por que foram escolhidas estas duas cidades, foi simplesmente uma questão prática: os pesquisadores pediram outros lugares, sem sucesso, e foi-lhes negado o acesso especificamente aos dados no Reino Unido). Estes ensaios foram esmagadoramente patrocinados pela indústria farmacêutica (98%) e as normas que regem a gestão dos resultados contam uma história que anda na beira do terrível e do absurdo.

Farmacêuticas podem interferir à medida que avança o ensaio
    Para 16 dos 44 ensaios, a empresa patrocinadora tinha de ver os dados à medida que se acumulavam, e noutros 16 tinha o direito de interromper ou suspender o estudo em qualquer momento e por qualquer razão. Isto significa que uma empresa pode ver se um ensaio está a ir contra ela, e pode interferir à medida que avança, distorcendo os resultados. Mesmo se a indústria permite que se conclua o estudo, os dados ainda poderiam ser suprimidos: houve restrições nos direitos de publicação em 40 dos 44 ensaios, e na metade deles, os contratos diziam especificamente que o patrocinador era proprietário de todos dados (que acontece com pacientes, poderíamos dizer?) ou teria de aprovar as publicações finais, ou ambas coisas. Nenhuma destas restrições é mencionada os documentos publicados.

    Quando o artigo que descreve esta situação foi publicado no JAMA, a LIF, a associação dinamarquesa da indústria farmacêutica respondeu anunciando, no Diário da Associação Dinamarquesa de Medicina, que estava enfurecida pelas críticas, que não podiam admitir. Exigiu uma investigação dos cientistas, sem dizer quem a faria nem o que deviam investigar. A LIF dirigiu-se posteriormente ao Comité Dinamarquês sobre Desonestidade Científica, acusando os pesquisadores de Cochrane de má conduta científica. Não pudemos ver a carta, mas os pesquisadores dizem que as acusações eram muito graves – foram acusados de distorcer deliberadamente os dados – mas sem documentos nem provas que as sustentassem.

    Apesar disso, a investigação prolongou-se durante um ano. Peter Gøtzsche, director do Centro Cochrane, disse à revista British Medical Journal que só na terceira carta a LIF, dez meses depois de iniciado este processo, fez acusações concretas que poderiam ser investigadas pela comissão. Dois meses depois, as acusações foram rejeitadas. Os pesquisadores de Cochrane não tinham feito nada de mal. Mas antes que fossem declarados inocentes, a LIF enviou cartas que alegavam a falta de honradez científica ao hospital onde quatro dos autores trabalhavam, e à organização que geria o hospital, e enviou cartas semelhantes à Associação Médica Dinamarquesa, ao Ministério de Saúde, ao Ministério de Ciência e assim sucessivamente. Gøtzsche e os seus colegas sentiam-se “intimidados e atacados” pelo comportamento da LIF. A LIF continuou a afirmar que os pesquisadores eram culpados de má conduta, mesmo depois do fim da investigação.

A paroxetina é um antidepressivo comummente utilizado, da classe de fármacos conhecidos como inibidores seletivos da recaptação de serotonina ou ISRS. Também é um bom exemplo de como as empresas se aproveitaram de nossa longa permissividade sobre os ensaios que não são feitos ou não são divulgados, e encontrou lacunas nas nossas regulações inadequadas em matéria de divulgação de informação sobre os ensaios.

Processo para obter permissões de comercialização
    Para entender as razões há que começar por analisar o processo pelo que se concedem permissões de comercialização. A aprovação da comercialização de um medicamento não é para ser utilizada em qualquer problema médico: para cada uso específico, para cada doença específica é preciso uma autorização de comercialização separada. Assim, um fármaco poderia ser autorizado para o tratamento do cancro de ovário, por exemplo, mas não para o do cancro de mama. Isso não significa que o medicamento não sirva para tratar o cancro de mama. Bem poderia ter alguma evidência de ser muito bom para o tratamento desta doença também, mas talvez a empresa não se tenha dado ao trabalho nem investido em obter uma autorização de comercialização formal para esse uso específico. Os médicos podem receitá-lo para o cancro de mama, se quiserem, já que o medicamento se encontra disponível para ser prescrito, é provável que funcione, e há paletes do mesmo nas farmácias à espera de serem fornecidos. Nesta situação, o médico pode prescrever o fármaco legalmente, mas “off-label” (fora de indicação).

    Agora, acontece que o uso de um fármaco em crianças requer uma autorização de comercialização diferente à do seu uso em adultos. Isto faz sentido em muitos casos, já que as crianças podem responder aos medicamentos de formas muito diferentes e, portanto, deve realizar-se uma investigação nas crianças em separado. No entanto, conseguir uma licença para um uso específico é um grande trabalho, que requer muita papelada e alguns estudos específicos. Com frequência, isto vai ser tão caro que as empresas não se preocupam em conseguir uma licença específica para comercializar um medicamento para uso pediátrico, devido a que o mercado é em geral muito mais pequeno.

   Assim, não é raro que um fármaco seja autorizado para uso em adultos, mas depois receitado a crianças. Os reguladores deram-se conta de que isto é um problema, pelo que recentemente começaram a oferecer incentivos às empresas para levar a cabo mais investigações e solicitar formalmente estas licenças.

A maior investigação na história do Reino Unido na regulação dos fármacos

    Quando a GlaxoSmithKline solicitou uma autorização para comercializar paroxetina em crianças, uma situação extraordinária saiu à luz, o que provocou a maior investigação na história do Reino Unido na regulação fármacos. Entre 1994 e 2002, a GSK realizou nove ensaios com paroxetina em crianças. Os dois primeiros não puderam demonstrar qualquer benefício, mas a companhia absteve-se de qualquer tentativa de informar alguém destes resultados, mudando as etiquetas do medicamento que se enviam a todos os médicos e aos pacientes. De fato, ao terem terminado estes ensaios, um documento interno dos administradores da empresa afirmou: “Seria comercialmente inaceitável incluir uma declaração de que a eficácia do fármaco não foi demonstrada, já que com isso se prejudica o perfil da paroxetina.” No ano posterior a este documento secreto interno, somente no Reino Unido foram emitidas 32.000 receitas de paroxetina a crianças: assim, ao mesmo tempo que a empresa sabia que o medicamento não funcionava com crianças, não tinha pressa de o dizer aos médicos, apesar de saber que grande número de crianças a estavam a tomar. Mais ensaios clínicos foram realizados nos anos seguintes – nove ao todo – e nenhum mostrou que o fármaco fosse eficaz no tratamento da depressão em crianças.

Efeitos secundários ocultos
    Mas há pior. Estas crianças não só receberam um medicamento que a empresa sabia que não era eficaz, como também foram expostos aos efeitos secundários. Isto deveria ser evidente por si só, já que qualquer tratamento efetivo terá alguns efeitos secundários, e os médicos contam com este fator, junto com os benefícios (que neste caso não existiam). Mas ninguém sabia como eram maus estes efeitos secundários, porque a empresa não comunicou nem aos médicos, nem aos pacientes, e nem sequer ao regulador, a informação a respeito dos preocupantes dados de segurança dos seus ensaios. Isto deveu-se a um vazio legal: deve-se comunicar ao regulador só os efeitos secundários reportados em estudos que analisam os usos específicos para os quais o fármaco tem permissão de comercialização. Devido ao facto de o uso da paroxetina em meninos ser “off-label”, a GSK não tinha obrigação legal de informar ninguém sobre o que tinha descoberto.

Risco de suicídio
    Desde há tempos havia a preocupação de a paroxetina poder aumentar o risco de suicídio, mas este é um efeito secundário difícil de detetar quando se trata de um antidepressivo. Em fevereiro de 2003, a GSK enviou espontaneamente à MHRA um pacote de informação sobre o risco de suicídio da paroxetina, que continha algumas análises realizadas em 2002 a respeito dos eventos adversos ocorridos durante os ensaios que a companhia patrocinara, remontando a uma década atrás. Esta análise mostrou que não havia nenhum aumento do risco de suicídio. Mas isto era enganoso: ainda que não estivesse claro nesse momento, os dados dos ensaios em crianças tinham sido misturados com os dados dos ensaios em adultos, que contavam com um número muito maior de participantes. Como resultado, qualquer sinal de risco de suicídio entre as crianças tratadas com paroxetina fora completamente diluído.

    Mais tarde, em 2003, a GSK teve uma reunião com a MHRA para discutir outro tema relacionado com a paroxetina. Ao final desta reunião, os representantes da GSK entregaram um documento informativo, explicando que a empresa tinha a intenção de solicitar nesse mesmo ano a permissão para comercializar a paroxetina para uso específico na população pediátrica. Mencionaram, enquanto entregavam o documento, que a MHRA talvez desejasse ter em conta o problema de segurança que a companhia tinha assinalado: um aumento do risco de suicídio entre os meninos com depressão que receberam paroxetina, em comparação com os que receberam placebo.

    Eram dados sobre efeitos secundários de vital importância, que se tinham apresentado após um atraso surpreendente, por acaso, de uma maneira totalmente inadequada e não oficial. Apesar de os dados terem sido entregues a um grupo que não tinha nada que ver com este tema, o pessoal do MHRA presente a esta reunião teve o talento para descobrir de que se tratava de um problema importante. Isto desencadeou uma série de atividades: realizaram-se as análises e, um mês depois, foi enviada uma carta a todos os médicos aconselhando a não prescrever paroxetina a pacientes menores de 18 anos.

Regulamentos têm lacunas legais ridículas
    Como é possível que os nossos sistemas de obtenção de informações das empresas sejam tão maus, que se possa reter informação de vital importância para demonstrar que um medicamento não só é ineficaz, como também ativamente perigoso? Porque as regulações contêm lacunas legais ridículas, e é triste ver como a GSK alegremente as aproveita: quando a investigação foi publicada em 2008, chegou-se à conclusão de que aquilo que a a empresa fizera – a retenção de dados importantes sobre a segurança e eficácia que os médicos e os pacientes precisavam – era claramente pouco ético, e punha as crianças de todo mundo em risco; mas as nossas leis são tão débeis que a GSK não pode ser acusada de qualquer delito.

    Após este episódio, a MHRA e a UE mudaram algumas dos seus regulamentos, ainda que não o suficiente. Obrigaram as empresas a entregar os dados de segurança quando um medicamento é usado para fins não autorizados, mas ridiculamente, por exemplo, os ensaios realizados fora da UE continuavam a estar isentos de o fazer. Alguns dos ensaios realizados pela GSK foram publicados em parte, mas obviamente isso não é suficiente: já sabemos que se vemos apenas uma mostra pequena dos dados, estamos a ser enganados. Mas também precisamos de todos os dados pela simples razão de que precisamos de muitos dados: os sinais de segurança são com frequência fracos, subtis e difíceis de detetar. No caso da paroxetina, os perigos fizeram-se evidentes só quando os eventos adversos de todos os ensaios se agruparam e analisaram juntos.

Resultados entregues em segredo ao regulador
    Isso leva-nos à segunda falha evidente no sistema atual: os resultados destes ensaios são entregues em segredo ao regulador, que depois se senta em silêncio e toma uma decisão. Isto é o oposto da ciência, que é fiável só porque toda a gente mostra o seu trabalho, explica como sabem que algo é eficaz ou seguro, compartilha os seus métodos e resultados, e permite que outros decidam se estão de acordo com a forma como os dados foram processados e analisados. No entanto, para a segurança e a eficácia dos medicamentos, permitimos que tudo ocorra a portas fechadas, porque as empresas farmacêuticas decidiram que querem compartilhar os seus resultados dos ensaios discretamente com os reguladores. De modo que o trabalho mais importante na medicina baseada na evidência leva-se a cabo a sós e em segredo. E os reguladores não são infalíveis, como veremos mais adiante.

Risco de problemas cardíacos
    A rosiglitazona comercializou-se pela primeira vez em 1999. Nesse primeiro ano, o Dr. John Buse, da Universidade de Carolina do Norte, comentou que tinha detetado um maior risco de problemas cardíacos num par de reuniões acadêmicas. O fabricante do medicamento, a GSK, entrou em contacto direto com ele, com a intenção de fazê-lo calar-se, e depois contactou o seu chefe de departamento. Buse foi pressionado a assinar vários documentos legais. Para não alongar a história, após rechear-se de documentos durante vários meses, em 2007, o Comité Senatorial de Finanças de EUA deu a conhecer um relatório que descreve o tratamento de Buse como “intimidatório”.

    Mas preocupa-nos mais os dados de segurança e eficácia. Em 2003, o grupo de fármaco-vigilância de Uppsala da Organização Mundial da Saúde pôs-se em contacto com a GSK porque tinha detetado um número inusualmente grande de notificações espontâneas que associavam a rosiglitazona com problemas de coração. A GSK realizou duas meta análise internas dos seus próprios dados em 2005 e 2006, respetivamente. Estes mostraram que o risco era real, mas apesar de tanto a GSK quanto a FDA terem estes resultados, nenhum dos dois fez qualquer declaração pública sobre eles, e não foram publicados até 2008.

    Durante este período de tempo, um grande número de pacientes foi exposto ao fármaco, mas os médicos e os pacientes não se inteiraram deste grave problema até 2007, quando o professor de cardiologia Steve Nissen e os seus colegas publicaram uma meta-análise que se converteu em ponto de referência. O documento mostrava um aumento de 43% no risco de problemas cardíacos nos pacientes tratados com rosiglitazona. Dado que as pessoas com diabetes já sofrem um maior risco de ter problemas de coração, e o ponto central de tratamento da diabetes é reduzir este risco, este achado era importante. Os resultados de Nissen foram confirmados em trabalhos posteriores, e em 2010 o fármaco foi retirado, ou o seu uso restringido, no mercado global.

Devia ter sido proibido antes
    A minha opinião não é de que este fármaco deveria ter sido proibido antes, porque, ainda que soe perverso, os médicos com frequência precisam de medicamentos inferiores para os utilizar como um último recurso. Por exemplo, um paciente pode desenvolver efeitos secundários idiossincráticos com as pílulas mais eficazes e ser incapaz de tomá-las por mais tempo. Uma vez que isto aconteceu, pode valer a pena testar um medicamento de menor eficácia se nesse paciente é melhor que nada.

    A minha preocupação é que estes debates ocorreram à porta fechada, e só os reguladores tiveram acesso aos dados. De facto, a análise de Nissen só pôde ser realizada graças a uma sentença judicial muito especial. Em 2004, quando a GSK foi surpreendida tendo omitido dados que mostravam indícios de graves efeitos secundários da paroxetina em crianças, o seu mau comportamento deu lugar a um processo judicial nos EUA por fraude. Como resultado, a GSK teve de pagar uma multa significativa e publicar os resultados dos ensaios clínicos num site público.

    Nissen utilizou os dados de rosiglitazona, quando estiveram disponíveis, e encontrou indícios preocupantes de dano, que depois foram publicados para os médicos – algo que os reguladores nunca tinham feito, apesar de ter a informação dos anos anteriores. Se esta informação tivesse estado livremente disponível desde o princípio, os reguladores poderiam ter-se sentido um pouco mais preocupados pelas suas decisões, mas, sobretudo, os médicos e os pacientes poderiam ter estado em desacordo com eles e ter tomado decisões com essa informação. É por isso que precisamos de um maior acesso a todos os relatórios dos ensaios, para todos os medicamentos.

    A omissão estraga as bases da informação para todo o mundo. Se os ensaios adequados nunca são feitos, se os ensaios com resultados negativos são retidos, então simplesmente não podemos conhecer os verdadeiros efeitos dos tratamentos que utilizamos. A evidência em medicina não é uma preocupação acadêmica abstrata. Quando se introduzem dados incorretos e tomamos as decisões erradas, infligimos dor desnecessária e sofrimento e morte em gente como nós.

Ben Goldacre é psiquiatra, jornalista científico e colaborador habitual em programas de rádio e televisão. Autor da coluna semanal “Bad Science” no jornal The Guardian

Fonte: http://outraspalavras.net/

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Edição 47